IBGF, Rio de Janeiro, 26 de outubro de 2009
Dionnara Castro
Por todos esses anos debati-me violentamente com o conceito de crime organizado. Entendia que, sendo organizado, o crime, necessariamente, não seria violento. Mas não. Percebe-se que a organização criminal já contempla e inclui a violência, como método de controle social, por exemplo, produzindo a fragmentação de territórios em facções (comando vermelho, amigos dos amigos, PCC, terceiro comando). Embora a imprensa exploda notícias sobre um conceito nominado como “guerra do tráfico”, sabemos não passar de um cotidiano que inclui boletins de ocorrência, nos quais deverá conter “número de mortos em confronto com a polícia e/ou desaparecidos”. E tudo isto está na mais perfeita ordem.
Também apontei à possibilidade de que a política de cotas raciais fosse usada, no imaginário popular, para reforçar preconceitos antigos. Do mesmo modo percebe-se, conforme publicado no jornal O Globo, o ressurgimento de facções, partidos, de extrema direita, no Reino Unido, as sombras de Mussolini.
Soma-se a tal fato à seriíssima corrupção de valores, como a espetacularização do presidente italiano e suas correntes de prostituição. Ou seja, se pensávamos que sairíamos melhor da crise econômica mundial certamente podemos dizer que saímos piores, anestesiados, indiferentes, impotentes, banalizando a violência, frente a uma sociedade que vive sob a égide de paradigmas clássicos, insistindo na hipocrisia como estilo de vida.
Aqui, mostre-se que sempre pensamos no desnível sócio-econômico e cultural da população negra no Brasil como parâmetro para entrada no mundo acadêmico, o que sempre fôra desconsiderado. Numa associação livre, analiticamente pensando, aponta-se que obviamente a quantidade de jovens envolvidos no varejo do tráfico equivale ao número daqueles que não tem acesso aos direitos e, portanto, não foram educados aos deveres, constitucionais. Sendo assim, o varejo do tráfico é tão somente parte de um sistema que culmina no encarceramento, onde se formam cidadãos da mais alta periculosidade, haja vista toda espécie de constrangimento, degradação e humilhação a que foram expostos durante toda vida, tal qual é desumana, como sabemos, a formação de nossos policiais e soldados.
“Dono do morro, gerente, soldado, vapor”, nada mais é do que a continuidade de nossa Política de Segurança Pública, que sobrevive ilicitamente da lavagem de dinheiro - e não da verba de usuários -, o que alimenta grande parte de nossa classe média e alta.
Neste contexto, parece-nos relevante ressaltar, novamente, estudos sobre a invenção dos chamados “novos fundamentalismos”, em duas vertentes: pela alienação neopentencostal; pela inserção em atividades ilícitas e/ou informais. Com efeito, observamos os desdobramentos dos novos fundamentalismos, cuja principal característica é a anulação de certo grau do sentimento de medo, inerente à sobrevivência da espécie.
Numa perspectiva analítica, nada impede, ou garante, que a humanidade ande pra frente. Por exemplo, no caso da nossa crise econômica mundial, andamos visivelmente para trás, reforçando valores derrocados pela história teórica e prática, sem coragem o suficiente para traduzirmos em ações os paradigmas do século XXI, o que levaria muita gente acomodada aos shoppings e outras frivolidades ao pensar mais profundo.
Como já dizia Baumann, a superficialidade das relações culmina na angústia que assola as classes médias e altas, que não encontram no vício consumista exarcebado qualquer saída para o sofrimento. Da mesma forma, as maiorias continentais marginalizadas estão submersas a tal ordem que, sendo humana, é mesmo cruel e violenta.
Dito isto, espera-se, além da liberação da marijuana para fins terapêuticos, que o governo Obama coloque em prática um novo enfrentamento para as questões no Afeganistão, como por exemplo, reformas estruturais e não simplesmente a lida bélica.
Da mesma forma, espera-se que a falida “guerra às drogas colombianas”, endossadas por documentos ultrapassados da própria ONU, seja superada por uma lida mais verdadeira, considerada a partir da Política Pública de Redução de Danos, que vem sendo defendida por organizações internacionais da sociedade civil com visível e profundo conhecimento de causa.
Atente-se ao fato de que o Brasil, situado na América Latina, América do Sul, no contexto Ibero-americano, está no front pelas garantias constitucionais, que visem à alternância do poder executivo, bem como à independência entre os três poderes constituídos, pilares de uma sociedade que caminhe rume à democratização.
Dito de outro modo, sempre apontamos a necessidade urgente de que o governo atual contemplasse a oposição, como força motriz de um pensamento que não fosse totalitário. O que estamos, portanto, colhendo é a “mesmice” das organizações não governamentais, enquadradas de alguma forma em inúmeros ministérios e/ou programas; bem como o enfraquecimento da mídia alternativa e da chamada grande mídia.
Esse contexto antropofágico, com uma elite mundial uniformizada, é devastador de sentimentos, pensamentos e sonhos de um futuro menos bárbaro.